10 setembro 2018

A data esquecida

Estamos no Setembro Amarelo, mês dedicado para tirar o estigma do tabu que é o suicídio.Hoje é considerado o dia mundial de prevenção do suicídio. Mesmo esse dia ter sido criado desde 2003, os dados ainda são alarmantes. Cerca de um milhão de pessoas se matam todo ano, e cerca de 10 a 20 milhões tentam suicídio. Números chocantes, pelo menos para mim, mas que parece não causar nenhuma reação na maioria das pessoas. O que me deixa extremamente chateada. 

Desde muito tempo o que é diferente é visto como errado e é julgado. Quem tem doença mental sabe bem o que é isso e a grande maioria dos atos de suicídio é cometido por pessoas que possuem alguma doença mental. Então criou-se uma mentalidade que quem tenta suicídio é doido e ponto final, como se fosse uma atitude isolada, sendo que qualquer um pode tentar tirar a própria vida. Todos estamos sujeitos a tomar essa atitude extrema. É natural que você já tenha pensado em morrer, nem que tenha sido uma única vez. O problema é quando você começa a pensar constantemente e isso atrapalha a sua vida.

O governo brasileiro pouco faz e a população em geral não se importa. Quantas pessoas você viu hoje falando sobre isso? Quantos meios de comunicação deram destaque a esse assunto? Entre os anos de 2011 e 2015 o número de suicídios no Brasil aumentou 12%, segundo dados do Ministério Público. Porém, mesmo assim, o assunto continua em último plano e o número continua aumentando. Quantas vidas precisarão serem perdidas para que  as pessoas olhem com outros olhos esse tópico? Isso me dói profundamente. Me dói pois essas mortes poderiam ser evitadas. Se o governo construísse mais CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), que são centros que acolhem pessoas com algum transtorno mental e lá elas fazem atividades terapêuticas (muito melhor do que os hospitais psiquiátricos atuais). 

Uma pessoa que pensa em suicídio precisa de apoio de familiares e amigos, mas principalmente de ajuda psiquiátrica e de um psicólogo. Os governos tem quem investir em profissionais dessa área para que atendam todos de forma gratuita. Muitas pessoas tentam suicídio porque não tem acesso ao tratamento, o que é um absurdo pois a pessoa está sofrendo de uma doença como qualquer outra e merece respeito e atenção. 



Outro motivo pelo qual os números de suicídio continuam sendo altíssimos, é que as pessoas insistem em jogar esse assunto debaixo do tapete. Esse assunto não é debatido em escolas, e raramente em faculdades e em espaços públicos (pelo menos no Brasil). O que é extramente errado. Para se resolver um problema é preciso discutir sobre ele para procurar soluções. Mas como irá ser discutido se só há um enorme silêncio acerca deste assunto?

As pessoas precisam se informar e é obrigação do governo e dos profissionais de saúde espalhar essa informação. Mas parece que ninguém se importa. 

Se você, ou alguém que você conhece, estiver passando por um momento difícil procure ajuda. Se você está desesperado ligue para o CVV (número 188). Se você é de Recife (ou lugares próximos) aqui você vai encontrar uma lista de lugares que oferecem ajuda de psicólogos. Você também tem direito a um psiquiatra, se você estiver precisando. Mas passe num psicólogo primeiro que ele/a vai avaliar seu caso e ver se há necessidade ou não de um psiquiatra. 

02 setembro 2018

Resenha: Christopher Robin - Um Reencontro Inesquecível

Lançado dia 16 de agosto, o filme é ótimo para quem é fã do Ursinho Pooh e companhia e para quem também não é fã, pois fala de temas como resgate ao passado, dinheiro, capitalismo e de como devemos dar valor a família, amigos e coisas simples. Segue a sinopse:
"Christopher Robin (Ewan McGregor) já não é mais aquele jovem garoto que adorava embarcar em aventuras ao lado de Ursinho Pooh e outros adoráveis animais no Bosque dos 100 Acres. Agora um homem de negócios, ele cresceu e perdeu o rumo de sua vida, mas seus amigos de infância decidem entrar no mundo real para ajudá-lo a se lembrar que aquele amável e divertido menino ainda existe em algum lugar."



Para mim, um dos melhores filmes do ano. Um filme que me emocionou e me fez refletir muito. O filme no começo retrata o Christopher Robin criança, com seus amigos da turma do Ursinho Pooh. Ele tem que se despedir de seus amigos, pois vai para um internato. Depois disso ele nunca mais vê seus amigos, pois ele cresceu e não tem mais tempo para isso. Preso num trabalho em que ele tem que
trabalhar cada vez mais e mal tem tempo para família e para amizades, Christopher acaba reencontrando o seu velho amigo Pooh. Pooh precisa da ajuda de Christopher para achar seus amigos que sumiram do Bosque dos 100 Acres. Relutante, Christopher vai e acaba embarcando na aventura e acaba se redescobrindo. 

O filme, que se passa depois da segunda guerra mundial, faz uma crítica ao excesso de trabalho da época e que vemos até hoje. Temos a mentalidade de que devemos trabalhar sem parar, para no futuro usufruir do dinheiro que o trabalho nos proporcionou. Porém, como a esposa de Christopher diz, estamos vivendo o agora, a sua vida é o agora. 

Podemos morrer agora e acabar não usufruindo do dinheiro, a vida é mais que trabalho. Claro, que temos que nos sustentar e às vezes sustentar uma família, mas, do que adianta viver pelo trabalho e não passar tempo com sua família e amigos, que são coisas que realmente importam? O filme fala justamente sobre isso. Sobre essa cultura de só se importar com coisas ligadas ao dinheiro e achar que só elas importam. Christopher estava tão focado no trabalho que não via que a filha estava infeliz com o internato que ele mandava ela ir, por exemplo.

O filme também é bastante interessante, pois segundo a revista cientifica Canadian Medical Association, cada personagem da turma do Ursinho Pooh representa um transtorno mental. O Ursinho Pooh teria TDAH, Bisonho (o burrinho) sofre de depressão profunda, Guru (o filhote de canguru) teria autismo, Leitão sofre de ansiedade, Can (a mãe canguru) poderia sofrer de ansiedade social, Abel (o coelho) parece sofrer de TOC, Tigrão aparenta sofrer de hiperatividade

Um filme que mostra que não devemos esquecer de quem realmente somos, e de que devemos pôr nossa felicidade e daqueles que nós nos importamos em primeiro lugar. 

Trailer do filme abaixo: 
                                       

30 julho 2018

A doença que quase me matou

Eu recebi o diagnóstico no final de 2014. Eu tinha 16 anos. Se você for ouvir de qualquer outro bipolar, vai ver que ele recebeu o diagnóstico tardio. Eu, ainda fui sortuda de ter recebido jovem. Por ser uma doença mental considerada grave, é preciso ter cuidado. O remédio mais usado para a bipolaridade é o lítio. Em excesso, pode até matar. Por isso, quem usa lítio tem que fazer exames de sangue todo mês para ver a quantidade no sangue. Mas voltando para quando eu recebi o diagnóstico. 

Bipolaridade é uma doença pouco falada, a única coisa que eu sabia de bipolaridade era o que a Demi Lovato tinha falado sobre a doença, já que ela também tem. E essa é umas das razões pela qual a Demi é tão importante para mim, mas isso é assunto para outro post. Eu fiquei assustada. Como assim eu não tenho "só" depressão? E como é ser bipolar? O que sou eu e o que é a doença? Como vou saber se uma emoção que eu sinto é real ou é só a doença se manifestando? Minha psicóloga e psiquiatra conversaram comigo e me tiraram algumas dúvidas. Eu me senti aliviada. Pois sempre soube que o que eu tinha não era "só" depressão. Tinha algo a mais. Por que eu era tão intensa? Por que eu me irritava com tanta facilidade? Por que nunca existia meio-termo para mim? Frequentemente eu ouvia (e ainda ouço, pois bipolaridade não tem cura) as pessoas dizerem "você tem o pavio curto" "você é muito intensa" "você é oito ou oitenta".

Eu aceito me julgarem por um defeito MEU. Mas eu não aceito me julgarem pela minha doença, algo que eu não controlo. Você acharia aceitável pedir para um paraplégico andar? Então. Você não pode me obrigar a agir como se eu fosse "normal". Entenda, quando eu me empolgo demais com algo e acabo falando alto ou fico tão empolgada que não consigo parar de falar, a culpa não é minha. Se você disser de uma forma adequada que eu estou incomodando eu imediatamente irei me retratar. Antes, eu não fazia ideia que estava sendo exagerada, mas agora que alguém notou eu vi. Quando uma pessoa está tomada por uma doença mental muitas vezes ela nem percebe. O estado de mania da bipolaridade, é um estado que o doente quase nunca percebe. Para mim era normal gastar mais 300 reais numa livraria. Mas quando o estado maníaco-depressivo passa, a culpa vem logo depois. E da vontade de rasgar sua pele pois você fez uma tremenda besteira.
Eu queria muito que eu fosse uma pessoa equilibrada e pudesse agir como qualquer outra pessoa. Mas infelizmente não sou. Eu tenho uma doença que me faz ser mais intensa que a maioria da população e isso dói. Dói porque sou uma minoria e minorias sofrem. Sofrem por serem incompreendidas. É muito difícil quando em vez de tentarem entender sua doença, as pessoas te julgam. Te acham mimada porque você não controla seu temperamento e acaba sendo impulsiva e falando coisas que não devia. Acham você inconveniente pois você fala demais, quando na verdade você não consegue parar. É sério, se ninguém falar comigo para eu parar eu posso falar para o resto da minha vida, isso quando estou em crises maníacas. Não me culpe quando eu estou muito irritada. Eu não queria estar e isso é um enorme sofrimento para mim. O meu cérebro não para um segundo, e nessas fases tenho que tomar remédio para o cérebro desacelerar. Eu imploro, não me julgue quando eu tiver reações inesperadas do tipo chorar por causa de um trabalho da faculdade. Eu não controlo. Minhas emoções estão sempre a flor da pele. 

Cerca de 30% a 50% dos portadores de bipolaridade no Brasil, tentam suicídio. É a doença que mais pessoas se matam. Eu, infelizmente, já tentei incontáveis vezes. É extremamente difícil viver com uma doença sem cura, principalmente quando essa doença mexe com todo o seu corpo. Muitas vezes, mesmo quando nada de ruim está acontecendo, eu penso em desistir. Porque eu sei que o estado depressivo vai vim. E quanto melhor eu tiver, mais alta será a queda. 




Eu sei que sou privilegiada, tenho reconhecimento disso. Se é difícil para mim, que tem todos os cuidados, imagina para alguém que não tem? Eu pretendo trabalhar com isso no futuro e lutar para que todos tenham direito à saúde mental digna. Pode ser algo utópico, mas os melhores sonhos são.

Ps: prometo fazer mais posts como esse, para desmitificar essa doença. Também tentarei falar de outras doenças.

19 julho 2018

A cidade que sorriu para mim

Para ser sincera, eu estava um pouco desanimada antes de fazer esse intercâmbio. Pouco tempo antes tinha passado dois meses no Canadá e não foi das melhores experiências. Estava com medo de fazer outro intercâmbio. Mas tudo isso mudou quando cheguei em Brighton. Uma cidade tranquila, com pessoas extremamente simpáticas  e atrações legais.

Nesse intercâmbio eu aprendi muito. Por ter tido uma experiência traumática no outro intercâmbio, essa viagem foi um desafio. Um desafio que eu venci. E eu estou muito orgulhosa de mim. Só eu sei o que passei para chegar até aqui, só eu sei o que passei aqui. Tudo para mim já é intenso e, aqui, foi tudo muito mais intenso. Minhas emoções estavam a flor da pele, mas isso significa que eu vivi. E aproveitei. Apesar de ter passado por situações ruins, eu passei por muitas boas também. Eu aprendi que tudo é passageiro e a vida é efêmera demais. Vi que sou mais forte do que pensava. Enfrentei traumas, passei por situações inimagináveis, que dariam um livro. E que sim, sou mais forte que meu transtorno mental. Que meus medos.
Eu agradeço a essa cidade por ter me ensinado tanto. E que me cativou de todas as formas possíveis. Uma cidade em que todos sorriem quando você olha para eles não poderia ser uma cidade ruim. Ela sorriu para mim, e eu sorri de volta. Brighton, eu te amo. Eu te amo, porque como qualquer relacionamento não foi fácil, mas foi um relacionamento saudável e feliz. E eu não digo que chegou ao fim, apenas a uma pausa para seguirmos caminhos diferentes. Eu prometo voltar. Mas obrigada por ter me feito mais forte, por ter me amadurecido e me tornado uma pessoa melhor. Eu nunca vou te esquecer. Nunca. See you soon.
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